Dados históricos positivos do mercado de trabalho contrastam com concentração de jovens em ocupações de baixa qualificação e alto risco de automação
O Brasil encerrou 2025 com um marco histórico no mercado de trabalho. A taxa de desemprego atingiu 5,1%, o menor nível desde o início da série histórica em 2012, segundo o IBGE. Ao mesmo tempo, o país chegou a 103 milhões de pessoas ocupadas e registrou o maior rendimento médio da história.
Os números são expressivos. Mas escondem uma realidade estrutural que começa a preocupar especialistas: o avanço do emprego entre jovens ocorre, majoritariamente, em funções com baixo salário, alta rotatividade e risco elevado de extinção nos próximos anos.
É o caso de João, 19 anos, morador da periferia de São Paulo, que conquistou seu primeiro emprego formal como auxiliar logístico. Para as estatísticas, ele representa avanço. Para o futuro, pode estar ocupando um posto que tende a desaparecer.
O dado que muda a leitura do recorde
Levantamento do FGV IBRE com base na PNAD Contínua revela que metade dos jovens entre 18 e 24 anos está concentrada em apenas 20 ocupações.
Entre elas:
- Balconistas
- Operadores de caixa
- Auxiliares de limpeza
- Atendentes de telemarketing
- Escriturários
São funções com baixa complexidade técnica e pouca progressão de carreira. O rendimento médio desse grupo é de R$ 1.815, bem abaixo da média nacional de R$ 3.315.
A diferença chega a quase 45%.
Além disso, a taxa de desemprego entre jovens atingiu 14,9% no primeiro trimestre de 2025, praticamente o dobro da média geral do país.
O mercado cresceu, mas não de forma equilibrada.
Crescimento mais lento e alerta ignorado
Outro dado relevante passou quase despercebido: o CAGED registrou a criação de 1,27 milhão de empregos formais em 2025, número inferior ao de 2024.
O saldo é positivo, mas indica desaceleração.
Esse movimento ocorre justamente no momento em que a automação e a inteligência artificial avançam com maior velocidade, atingindo diretamente funções de entrada no mercado.
O primeiro degrau está desaparecendo
Existe um conceito central na economia do trabalho chamado learning by doing, que significa aprender fazendo. Historicamente, funções iniciais servem como base para o desenvolvimento profissional.
O problema é que a inteligência artificial está ocupando exatamente esse espaço.
Estudo recente do banco Goldman Sachs aponta que a IA tem eliminado, em termos líquidos, cerca de 16 mil empregos por mês nos Estados Unidos.
- 25 mil postos são substituídos
- Apenas 9 mil são criados
O impacto é mais forte entre jovens de 22 a 25 anos, que registraram queda de 16% no emprego em funções expostas à tecnologia.
As áreas mais afetadas coincidem com aquelas onde os jovens brasileiros estão concentrados:
- Entrada de dados
- Atendimento ao cliente
- Redação básica
- Suporte administrativo
- Análises operacionais
A cicatriz invisível na carreira
Outro ponto crítico identificado pelo mesmo estudo é o chamado “scarring”, ou cicatriz de carreira.
Trabalhadores impactados por substituição tecnológica levam, em média, dez anos para recuperar o nível salarial que teriam atingido normalmente.
Isso acontece porque deixam de acumular experiência nos anos iniciais da trajetória profissional.
Sem base, não há progressão consistente.
Geração preparada, mas sem porta de entrada
Há uma contradição evidente: a atual geração de jovens é a mais familiarizada com inteligência artificial da história.
São profissionais que já chegam ao mercado utilizando ferramentas avançadas, com capacidade de adaptação tecnológica acima da média.
Mesmo assim, enfrentam maior dificuldade de inserção em funções estruturadas.
O motivo é simples: as vagas que tradicionalmente serviam como porta de entrada estão diminuindo ou sendo automatizadas.
A competência existe. A oportunidade não acompanha.
Um problema que vai além do mercado
A discussão deixa de ser apenas econômica e passa a ser estrutural.
O Brasil está envelhecendo rapidamente. Dados da PNAD mostram que:
- A população com menos de 30 anos caiu de 49,9% para 41,4% desde 2012
- Pessoas com mais de 60 anos já representam 16,6%
- A taxa de fecundidade está em 1,57 filho por mulher
A projeção indica que a população brasileira começará a diminuir a partir de 2041.
Isso aumenta a dependência de uma geração jovem produtiva, qualificada e com trajetória salarial crescente.
Sem isso, o impacto atinge diretamente o equilíbrio fiscal e o sistema previdenciário.
Três mudanças urgentes
A análise aponta três frentes críticas que precisam avançar com urgência no país:
Governo:
Criar indicadores que avaliem a qualidade dos empregos, considerando risco de automação, faixa salarial e possibilidade de crescimento.
Empresas:
Reavaliar a eliminação de cargos iniciais. A formação de talentos depende da existência desses primeiros degraus.
Educação:
Antecipar o desenvolvimento de habilidades que a IA não substitui:
- Comunicação
- Pensamento crítico
- Inteligência emocional
- Capacidade de negociação
- Resolução de problemas complexos
A pergunta que falta fazer
O Brasil comemora números históricos no emprego. Mas ainda não responde às questões mais relevantes:
- Que tipo de emprego está sendo criado
- Qual o potencial de crescimento dessas funções
- Se essas ocupações existirão no futuro
João não faz essas perguntas. Ele comemora o primeiro emprego.
A questão central é quem está fazendo essas perguntas por ele.
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