Visa cria operação própria para entrar no jogo do Pix sem depender dos cartões

A Visa criou a Visa Conecta para desenvolver soluções de pagamento fora do modelo tradicional dos cartões, com foco em Pix, Open Finance e biometria.

Com a Visa Conecta, gigante dos pagamentos aposta em Open Finance, biometria e pagamentos dentro do WhatsApp para reduzir etapas nas compras digitais.

A Visa criou uma nova empresa para disputar um espaço que, por muito tempo, parecia distante do seu negócio tradicional: os pagamentos sem cartão. Batizada de Visa Conecta, a operação funciona de maneira independente e nasce com uma missão estratégica: testar soluções de Open Finance, Pix e pagamentos digitais que não dependem necessariamente de um cartão físico ou virtual.

A movimentação chama atenção porque coloca a própria Visa diante de uma espécie de concorrência interna. Em vez de proteger apenas o modelo clássico das bandeiras de cartão, a companhia decidiu criar uma estrutura separada para desenvolver soluções capazes de acompanhar a mudança de comportamento dos consumidores no Brasil, um dos mercados de pagamentos digitais considerados estratégicos pela empresa.  

Na prática, a Visa Conecta atua em uma frente que ganhou força com o avanço do Pix, do Open Finance e das experiências de compra integradas a aplicativos de mensagem. Segundo a Forbes Brasil, a nova empresa opera como Iniciadora de Pagamentos, utilizando licença de Open Finance do Banco Central para permitir que o consumidor conclua uma transação sem precisar sair do ambiente onde está comprando.  

Esse detalhe é central para entender a estratégia. Hoje, em muitas compras online, o usuário ainda precisa copiar um código Pix, abrir o aplicativo do banco, colar a informação, confirmar a operação e voltar ao site ou aplicativo original. A proposta da Visa Conecta é reduzir essa jornada. Com biometria e integração ao Open Finance, o pagamento pode ser iniciado de forma direta, com menos etapas e sem redirecionamento para o app bancário.  

Um dos exemplos citados pela reportagem envolve a VaideBus, empresa voltada para transporte público. A solução permite que o passageiro recarregue o cartão de transporte pelo WhatsApp, usando Pix com autenticação biométrica, sem sair da conversa. O caso mostra como a Visa pretende ocupar espaços onde o pagamento acontece dentro de jornadas digitais simples, rápidas e próximas da rotina do consumidor.  

O movimento também ajuda a explicar por que o Brasil se tornou um laboratório relevante para as gigantes globais de pagamento. A própria Visa afirma que o país está entre os mercados mais maduros e inovadores do mundo em pagamentos digitais. A companhia chegou ao Brasil em 1987 e, desde então, passou a usar o mercado local como referência para soluções de aceitação, mobilidade urbana e novas experiências de pagamento.  

A criação da Visa Conecta ocorre em um momento em que Frederico Succi assumiu a vice-presidência de Produtos e Inovação da Visa no Brasil. O executivo, que está na companhia desde 2020, passou por áreas como estratégia, operações, iniciativas transfronteiriças e finanças. Agora, lidera uma agenda voltada a inteligência artificial, tokenização, autenticação, stablecoins e novas formas de comércio digital.  

Essa agenda não surge isolada. Reportagem do InfoMoney mostrou que a Visa colocou a inteligência artificial no centro da estratégia para 2026, com foco em segurança, gestão financeira para pequenas e médias empresas e novas jornadas de compra. A Bloomberg Línea também apontou IA, cibersegurança, alta renda e PMEs como prioridades da empresa no Brasil neste ciclo.  

O ponto principal é que a Visa parece reconhecer que o futuro dos pagamentos não será definido apenas por cartões. Ele passa por biometria, dados, autenticação invisível, Pix, aplicativos de mensagem, inteligência artificial e integração entre bancos, varejo e plataformas digitais.

Ao criar uma empresa com autonomia para experimentar fora do modelo tradicional, a Visa tenta se manter relevante em um mercado no qual a velocidade da inovação pode transformar uma vantagem histórica em vulnerabilidade. A Visa Conecta, portanto, não representa apenas uma nova unidade de negócios. Ela sinaliza que a disputa pelo pagamento do futuro já começou, e que até as gigantes globais estão dispostas a concorrer com o próprio passado para não perder espaço.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *