Mateus Dantas registrou a comunidade do Castelo Encantado decorada com as cores da seleção brasileira e transformou a escadaria em símbolo de beleza, pertencimento e orgulho popular
Fotógrafo viraliza em Fortaleza ao transformar o clima de Copa do Mundo em um retrato potente de identidade, comunidade e beleza popular. O protagonista dessa história é Mateus Dantas, fotógrafo que há dez anos dedica seu olhar ao cotidiano da capital cearense e às cenas que muitas vezes passam despercebidas no ritmo acelerado da cidade.
Desta vez, o cenário escolhido foi a comunidade do Castelo Encantado, no Grande Mucuripe, onde moradores se mobilizaram para decorar a principal escadaria com as cores da seleção brasileira. O resultado foi um conjunto de imagens de forte impacto visual, com arte urbana, vista privilegiada e um sentimento coletivo que remete à paixão do brasileiro pelo futebol.
As fotos ganharam repercussão nas redes sociais por unir três elementos de grande apelo: Fortaleza, Copa do Mundo e comunidade. Mas, por trás do visual vibrante, existe uma narrativa ainda maior. O ensaio fala sobre pertencimento, união e sobre a capacidade da periferia de criar beleza a partir da própria mobilização.
Ao Infoco, Mateus Dantas contou que a ideia surgiu depois de saber que os moradores do Castelo Encantado estavam fazendo uma vaquinha para comprar tinta e decorar a escadaria, considerada um dos principais pontos simbólicos da comunidade.
“Eu tenho um trabalho dedicado ao cotidiano de Fortaleza. Há dez anos venho fotografando a cidade e suas sutilezas do dia comum. Eu soube que a comunidade do Castelo Encantado estava fazendo uma vaquinha para comprar tinta e decorar seu principal ponto turístico (a escadaria) com as cores da seleção brasileira. Estão pensei que essas imagens iriam ficar lindas e encaixaria perfeitamente no tipo de trabalho que gosto de fazer”, disse Mateus Dantas ao Infoco.
Castelo Encantado vira cenário de Copa do Mundo em Fortaleza
O Castelo Encantado já é conhecido por sua localização privilegiada e pela vista marcante de Fortaleza. Para Mateus, a comunidade carrega uma força visual e humana que dialoga diretamente com o tipo de fotografia que ele desenvolve há anos.
O fotógrafo explica que seu trabalho não se limita a registrar paisagens bonitas. A proposta é observar a cidade em suas camadas, seus contrastes, suas sutilezas e seus personagens. Por isso, ao ver a escadaria sendo preparada com as cores da seleção brasileira, ele percebeu que ali havia uma cena capaz de sintetizar um sentimento coletivo.
A decoração feita pelos moradores não nasceu de uma grande produção institucional. Surgiu da iniciativa da própria comunidade. A vaquinha para comprar tinta e transformar o espaço mostra um tipo de mobilização que vai além da estética. É sobre tomar posse do território, celebrar a cultura popular e criar uma imagem positiva de um lugar que muitas vezes é visto por lentes carregadas de preconceito.
A Copa do Mundo, nesse contexto, aparece como pano de fundo emocional. Mesmo depois de frustrações recentes da seleção brasileira, o futebol continua sendo um elemento capaz de reunir famílias, vizinhos e gerações. No Castelo Encantado, esse sentimento ganhou forma nas paredes, nos degraus, nas cores e no olhar do fotógrafo.
A periferia também é cartão-postal de Fortaleza
Um dos pontos centrais do ensaio é a tentativa de ampliar a forma como Fortaleza é vista. A capital cearense costuma ser lembrada por praias famosas, hotéis, avenidas movimentadas e cartões-postais tradicionais. Mateus, no entanto, chama atenção para outra Fortaleza, que também é bela, fotogênica e cheia de histórias.
“Faz um tempo que venho fotografando a comunidade do Castelo Encantado e as comunidades do grande Mucuripe. Eu acredito que o Castelo Encantado tem uma das vistas mais lindas de Fortaleza e é sempre vítima do preconceito por ser um bairro de periferia. Fortaleza é linda para além dos seus cartões portais tradicionais. A intenção foi exatamente quebrar essa barreira do preconceito e mostrar que na periferia tem beleza. Que existe sim um povo unido, trabalhador e artista”, afirmou o fotógrafo.
A fala resume a força social do trabalho. Ao escolher o Castelo Encantado como cenário, Mateus desloca o olhar do público. A paisagem deixa de ser apenas fundo e passa a ser personagem. A comunidade aparece como território de criação, afeto e potência visual.
Esse tipo de fotografia ganha relevância porque confronta uma narrativa comum sobre periferias urbanas. Em vez de reforçar ausências, o ensaio destaca presença. Em vez de reduzir a comunidade a problemas, evidencia arte, união e orgulho.
A escadaria pintada com as cores do Brasil se transforma, então, em símbolo. Ela representa o esforço coletivo dos moradores, a preparação para um momento nacional e a vontade de mostrar o Castelo Encantado por uma lente diferente.
Moradores participaram e se encantaram com as imagens de drone
Durante a produção, a presença do fotógrafo e dos equipamentos chamou atenção dos moradores. Segundo Mateus, a comunidade recebeu a ação com curiosidade e entusiasmo. Muitas pessoas quiseram participar das imagens, especialmente ao perceberem a dimensão visual do trabalho.
“Quando se chega com um equipamento profissional de fotografia em qualquer lugar já se chamar atenção. Todos ficaram querendo participar das fotos, mas o que mais chamou atenção deles foi ver as imagens de drone. Ver toda aquela arte de cima foi uma maravilha”, contou.
O uso do drone ajudou a revelar a dimensão da intervenção artística. Vista do alto, a escadaria pintada ganha nova leitura. As cores se organizam no espaço, a comunidade se integra à paisagem e o cenário se aproxima de uma imagem cinematográfica.
Esse efeito visual ajuda a explicar a repercussão do ensaio. Nas redes sociais, imagens com forte composição, identidade local e emoção coletiva costumam gerar alto engajamento. No caso do Castelo Encantado, a força está justamente na combinação entre beleza natural, arte comunitária e clima de Copa do Mundo.
A reação dos moradores também reforça o valor simbólico da fotografia. Ao se verem retratados com cuidado, qualidade e respeito, eles passam a ocupar outro lugar na narrativa pública sobre a cidade. A imagem deixa de ser apenas registro e se transforma em reconhecimento.
Por que as fotos viralizaram?
Para Mateus Dantas, a viralização tem relação direta com a beleza da comunidade e com a força das pinturas. O ensaio captura algo que vai além da decoração para a Copa. Ele mostra um povo que ainda acredita, celebra e se reúne em torno de um símbolo nacional.
“Eu acredito que a beleza da comunidade misturada com a arte das pinturas chamou muito a atenção do público. E mostrar que apesar das derrotas passadas, o povo ainda acredita na seleção brasileira. E que perdendo ou ganhando, esses momentos de união é que fazem a diferença em uma competição tão grande como a copa do Mundo”, disse.
A resposta ajuda a entender por que as imagens tocaram tanta gente. A Copa do Mundo, mesmo quando ainda está por vir, movimenta memórias afetivas. Bandeiras, camisas amarelas, ruas pintadas e encontros entre vizinhos fazem parte de uma tradição brasileira que atravessa gerações.
No Castelo Encantado, essa tradição ganha uma camada própria. Não se trata apenas de decorar um espaço público. Trata-se de afirmar que a comunidade também participa da festa, também produz beleza e também tem direito de ser vista.
As fotos viralizam porque carregam essa mensagem de forma simples e forte. Elas mostram que o Brasil da Copa não está apenas nos grandes centros comerciais, nas arenas ou nas campanhas oficiais. Ele também está nas escadarias, nas casas, nas comunidades e nos gestos de quem se organiza para transformar o próprio território.
Mateus Dantas e o olhar sobre o cotidiano de Fortaleza
O trabalho de Mateus Dantas se insere em uma linha de fotografia documental que valoriza o cotidiano. Ao longo de uma década fotografando Fortaleza, ele construiu um olhar atento para cenas comuns que, quando enquadradas com sensibilidade, revelam aspectos profundos da cidade.
No ensaio do Castelo Encantado, esse olhar aparece com clareza. A fotografia não busca transformar a comunidade em algo artificial. Pelo contrário, valoriza o que já existe ali: a vista, a escadaria, a mobilização dos moradores, as cores, a arte e o sentimento de pertencimento.
Esse cuidado faz diferença. Em tempos de imagens rápidas e consumo acelerado nas redes sociais, trabalhos como esse ajudam a lembrar que a fotografia ainda pode contar histórias completas em um único frame. Pode emocionar, informar e provocar reflexão.
O viral, nesse caso, não nasce apenas da beleza da imagem. Nasce da verdade que ela carrega. A comunidade pintou, o fotógrafo registrou e o público reconheceu uma Fortaleza que muitas vezes não ganha o mesmo destaque dos pontos turísticos convencionais.
Fortaleza para além do óbvio
A repercussão das fotos de Mateus Dantas também levanta uma discussão importante sobre a forma como a capital cearense é representada. Fortaleza é praia, gastronomia, turismo, grandes eventos e vida urbana intensa. Mas também é morro, escadaria, comunidade, arte popular e gente que constrói a cidade todos os dias.
Ao mostrar o Castelo Encantado em clima de Copa do Mundo, o fotógrafo amplia esse imaginário. A cidade aparece viva, colorida e diversa. Uma Fortaleza que não cabe em um único roteiro turístico e que se revela com força quando alguém decide olhar com atenção para seus territórios.
A beleza do ensaio está justamente nesse encontro entre paisagem e humanidade. A vista paradisíaca impressiona, mas a história dos moradores torna a imagem ainda mais forte. A escadaria pintada chama atenção, mas o gesto coletivo por trás dela dá sentido ao registro.
No fim, as fotos viralizam porque mostram uma Fortaleza real, sensível e poderosa. Uma cidade onde a Copa do Mundo começa antes do apito inicial, nas mãos de quem pinta, organiza, torce e transforma a própria rua em cenário de celebração.
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