Coleção Energia foi apresentada na Praia de Iracema e levou à passarela uma reflexão sobre upcycling, economia circular e novos sentidos para materiais ligados ao cotidiano do trabalho
O estilista cearense Almir França levou ao DFB Festival 2026 uma das propostas mais simbólicas da programação ao apresentar a coleção Energia, criada a partir do reaproveitamento de uniformes utilizados por profissionais da Enel Brasil. O desfile aconteceu no primeiro dia do festival, em 9 de junho, no pavilhão de desfiles da Sala Branca, no Espaço Galpão, na Praia de Iracema.
Na passarela, peças originalmente associadas à rotina operacional do setor elétrico ganharam nova função estética e conceitual. O que antes era uniforme de trabalho foi transformado em vestidos, sobreposições, volumes, recortes e peças autorais, em uma coleção que conectou moda, sustentabilidade e expressão artística. A proposta integrou uma iniciativa da Enel voltada ao reaproveitamento de materiais e colocou em evidência temas como economia circular, upcycling e consumo consciente.
Uniformes ganharam novos significados na passarela
A coleção Energia apresentou um deslocamento de sentido: os uniformes deixaram de representar apenas função, técnica e rotina para ocupar o espaço da criação. Almir França partiu de materiais já existentes e os transformou em peças com presença visual forte, reafirmando a moda como ferramenta de reinvenção.
O desfile também propôs uma leitura sobre permanência. Em vez de tratar o uniforme como descarte, a coleção o reposicionou como matéria-prima de valor simbólico. Cada peça carregou a memória do trabalho e, ao mesmo tempo, abriu caminho para uma nova narrativa visual.
A escolha pelo upcycling reforçou uma discussão urgente na moda contemporânea: como criar sem ampliar o desperdício? No trabalho de Almir França, a resposta apareceu na própria construção dos looks, que transformaram resíduos têxteis em roupas de passarela com acabamento artesanal, impacto visual e discurso ambiental.
Coleção dialogou com os Parangolés de Hélio Oiticica
A coleção apresentada por Almir França teve inspiração nos Parangolés, obras vestíveis associadas ao artista Hélio Oiticica. A referência apareceu na relação entre roupa, corpo e movimento, elemento central para a leitura da coleção durante o desfile.
Na passarela, os looks ganharam força a partir do caminhar dos modelos. Camadas, transparências, recortes e estruturas amplas reforçaram a ideia de roupa como experiência, não apenas como peça estática. A coleção se aproximou da arte ao propor que o corpo ativasse os materiais e revelasse novas possibilidades para os uniformes reaproveitados.
Com isso, Almir França apresentou uma moda que não se limitou ao apelo visual. O desfile construiu uma narrativa sobre transformação, deslocamento e criação consciente, aproximando o setor elétrico, o design autoral e a arte brasileira.
DFB Festival 2026 reforçou a força da moda autoral cearense
Realizado de 9 a 12 de junho, na Praia de Iracema, o DFB Festival 2026 integrou as comemorações dos 300 anos de Fortaleza e reuniu desfiles, experiências culturais, música e ações voltadas à economia criativa.
Nesse contexto, a apresentação de Almir França reforçou o papel do festival como plataforma para a moda autoral brasileira. O desfile mostrou que a passarela também pode ser espaço de reflexão sobre cidade, consumo, trabalho e meio ambiente.
A parceria entre Almir França e Enel Brasil também marcou a continuidade de uma relação construída em torno da sustentabilidade. Ao transformar uniformes em peças de moda, o estilista demonstrou como materiais ligados ao cotidiano podem ganhar novos ciclos de vida quando passam pelo olhar criativo do design.
Uma passarela sobre reaproveitamento, memória e futuro
O desfile da coleção Energia foi além da apresentação de roupas. Ele levou ao público uma reflexão sobre o destino dos materiais e sobre a capacidade da moda de criar valor a partir do que já existe.
Ao reutilizar uniformes da Enel Brasil, Almir França deu visibilidade a peças que, fora da passarela, poderiam passar despercebidas. O trabalho transformou vestuário funcional em linguagem estética, reforçando a potência do design como instrumento de ressignificação.
A coleção também reafirmou a força da moda cearense dentro do cenário nacional. Com pesquisa, manualidade e conceito, Almir França apresentou uma proposta alinhada aos debates contemporâneos sem perder identidade autoral.
No DFB Festival 2026, Energia se destacou como um manifesto visual sobre transformação. A coleção mostrou que sustentabilidade pode ser estrutura criativa, não apenas tema de discurso, e que a passarela pode ser um espaço para imaginar novos caminhos para a moda.
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