Programação do festival em Curitiba reúne clássico lésbico restaurado, estreia mundial brasileira, documentário sobre Barbara Hammer e produções que ampliam a representatividade LGBTQIAP+ nas telas.
6 filmes com temática queer movimentam a programação do Olhar de Cinema em Curitiba
A 15ª edição do Olhar de Cinema, Festival Internacional de Curitiba, segue até o dia 13 de junho transformando a capital paranaense em um dos principais pontos de encontro do cinema independente no Brasil. Com uma programação ampla, formada por 80 filmes, o evento reafirma sua importância como espaço de circulação para obras nacionais e internacionais que apostam em novas linguagens, diversidade estética, debates sociais e narrativas fora dos modelos tradicionais do mercado audiovisual.
Neste ano, a programação ganha ainda mais força simbólica por acontecer durante junho, mês do orgulho LGBTQIAP+. A data de 28 de junho se consolidou mundialmente como um marco na luta por direitos, justiça social, memória, visibilidade e políticas públicas voltadas à comunidade. Dentro desse contexto, a presença de filmes com temática queer no festival amplia o diálogo entre cinema, identidade, afeto, dissidência, memória e representatividade.
A seleção reúne obras de diferentes formatos, países, gerações e propostas narrativas. Entre os destaques está “Corações Desertos”, clássico do cinema lésbico dirigido por Donna Deitch, exibido em cópia restaurada em comemoração aos 40 anos de seu lançamento comercial. O filme é considerado um marco por colocar no centro da narrativa o desejo entre mulheres em uma abordagem sensível, afirmativa e distante dos estigmas que marcaram boa parte das representações LGBTQIAP+ no cinema de décadas anteriores.
Outro ponto de atenção é a estreia mundial de “Olhe Para Mim”, do diretor alagoano Rafhael Barbosa. A produção integra a Mostra Competitiva Brasileira de Longas e se apresenta como uma fantasia alegórica inspirada no imaginário popular que margeia o Rio São Francisco. Além da presença de Rejane Faria, Luciano Pedro Jr. e Ulisses Arthur no elenco principal, o filme representa um marco para o audiovisual de Alagoas por ser a primeira ficção realizada no estado com edital público a chegar ao circuito.
A programação também inclui curtas brasileiros, produções experimentais, documentário de arquivo e obras que atravessam questões como transparentalidade, redes de apoio, corpo, sexualidade, envelhecimento, espiritualidade, memória lésbica e futuros possíveis para pessoas dissidentes. Ao reunir esses títulos, o Olhar de Cinema reforça o papel dos festivais como ambientes fundamentais para a circulação de histórias que muitas vezes encontram pouco espaço no circuito comercial.
“Corações Desertos” retorna às telas em cópia restaurada
Um dos grandes destaques da programação é “Corações Desertos” (“Desert Hearts”), dirigido por Donna Deitch. Lançado comercialmente em 1986, o longa é reconhecido como um clássico do cinema lésbico e retorna ao público em cópia restaurada, em uma celebração dos 40 anos de sua trajetória.
A história acompanha uma professora de literatura reprimida que aguarda os papéis do divórcio e, durante esse período de transição pessoal, se vê inesperadamente envolvida por uma jovem lésbica livre, intensa e cheia de vida. A força do filme está justamente na forma como a narrativa trata o desejo, a descoberta e a possibilidade de recomeço sem reduzir suas personagens ao conflito ou à punição.
A exibição dentro da Mostra Olhares Clássicos Cine Passeio reforça a importância de revisitar obras que ajudaram a abrir caminhos para novas representações LGBTQIAP+ no audiovisual. Em um cenário no qual personagens lésbicas foram historicamente invisibilizadas ou tratadas por lentes estereotipadas, “Corações Desertos” permanece atual por apresentar uma história de afeto com delicadeza, coragem e humanidade.
Sessões: 6 de junho, às 19h45, no Cine Passeio (Luz), e 8 de junho, às 16h, no Cine Passeio (Ritz).
“Olhe Para Mim” tem estreia mundial na Mostra Competitiva Brasileira
A estreia mundial de “Olhe Para Mim”, dirigido por Rafhael Barbosa, é outro momento importante da edição. Integrante da Mostra Competitiva Brasileira de Longas, o filme traz uma fantasia alegórica inspirada no imaginário popular ligado ao Rio São Francisco, unindo elementos simbólicos, território, ancestralidade e invenção cinematográfica.
Com Rejane Faria, conhecida por trabalhos como “Marte Um” e “Yellow Cake”, Luciano Pedro Jr., de “Carro Rei” e “Cangaço Novo”, e o estreante Ulisses Arthur no elenco principal, a obra chega ao festival com atenção especial não apenas por sua proposta artística, mas também pelo impacto histórico para a produção audiovisual alagoana.
A realização é apontada como a primeira ficção feita em Alagoas com edital público a chegar ao circuito. Esse dado amplia o alcance da obra, pois situa o filme dentro de um movimento de fortalecimento de cinematografias regionais que vêm conquistando espaço em festivais nacionais. A presença na programação do Olhar de Cinema reforça o interesse do evento em revelar novas vozes e geografias do cinema brasileiro.
“Marimbã está acontecendo” imagina futuros possíveis para corpos dissidentes
Na Mostra Competitiva Brasileira de Curtas-Metragens, “Marimbã está acontecendo”, dirigido por Maryn Marynho, propõe um mergulho poético em sonhos, águas, afetos e possibilidades de futuro para corpos dissidentes. A sinopse apresenta o pensamento de Marimbã atravessando diferentes sonhos pelas águas, tecendo relações de afeto e imaginando horizontes possíveis para pessoas trans.
A obra levanta questões fundamentais para a vivência trans, como transparentalidade, rede de apoio, infância, envelhecimento e espiritualidade. Ao perguntar como pessoas trans se imaginam daqui a 20, 40 ou 60 anos, o filme desloca a narrativa da sobrevivência imediata para um campo de futuro, continuidade e direito à existência plena.
Esse gesto é especialmente potente em um cenário social no qual corpos trans ainda enfrentam apagamentos, violências e limitações de acesso a espaços de cuidado, criação e memória. Ao transformar esse debate em cinema, “Marimbã está acontecendo” convida o público a pensar a experiência trans não apenas pelo trauma, mas também pela invenção, pelo afeto e pela permanência.
Sessões: 10 de junho, às 13h45, na Cinemateca, com acessibilidade na tela, Libras e legenda descritiva; 12 de junho, às 19h45, na Cinemateca; e 13 de junho, às 13h15, na Cinemateca.
“A Paixão Segundo GHB” mistura desejo, memória e realismo mágico
Dirigido por Gustavo Vinagre e Vinicius Couto, “A Paixão Segundo GHB” integra a Mostra Novos Olhares e se apresenta como uma odisseia de realismo mágico ambientada em um quarto gay. A trama parte de um encontro casual que se transforma em ménage à trois e, depois, em uma orgia. A partir daí, Matias passa a rememorar encontros passados e refletir sobre seu futuro enquanto conversa com uma figura fictícia da literatura brasileira.
A proposta coloca sexualidade, memória, literatura e delírio em uma mesma experiência narrativa. Em vez de tratar o quarto apenas como espaço íntimo, o filme parece transformá-lo em território simbólico, onde desejos, lembranças e projeções se cruzam. A presença do realismo mágico amplia as possibilidades de leitura da obra, aproximando corpo e imaginação.
Dentro da programação queer do festival, o filme chama atenção por tensionar os limites entre experiência sexual, subjetividade e construção narrativa. A obra também reforça a diversidade de abordagens possíveis dentro do cinema LGBTQIAP+, que pode transitar pelo drama, pelo experimental, pelo fantástico, pelo humor, pela memória e pelo pensamento sobre o próprio ato de narrar.
Sessões: 11 de junho, às 17h30, na Cinemateca, e 12 de junho, às 13h45, no Cine Passeio (Ritz).
“Tornar-se Ciborgue no Interior” discute vizinhança, desejo e tensão social
“Tornar-se Ciborgue no Interior”, dirigido por Louisa Savignon, integra a Mostra Mirada Paranaense Sanepar e apresenta uma narrativa que coloca em contraste dois casais vizinhos. Leo e Julia, proprietários de um sítio, querem ter filhos, mas enfrentam problemas de fertilidade. Ava e Mia, um casal lésbico, acabam de se mudar para o sítio ao lado. A chegada das duas mulheres provoca tensão com os vizinhos.
A sinopse aponta para uma obra que trabalha relações de proximidade, convivência e desconforto. O espaço rural, muitas vezes associado à ideia de isolamento ou tranquilidade, torna-se palco de disputas simbólicas envolvendo corpo, família, desejo e normas sociais. A presença de Ava e Mia parece desestabilizar expectativas e revelar conflitos que estavam latentes.
Ao inserir um casal lésbico nesse ambiente, o filme abre caminho para discutir como a diferença é recebida em espaços marcados por convenções tradicionais. A tensão entre vizinhos pode funcionar como metáfora para a dificuldade social de aceitar outras formas de afeto, família e existência.
Sessões: 7 de junho, às 14h30, na Cinemateca, com acessibilidade na tela, Libras e legenda descritiva; 7 de junho, às 16h, na Cinemateca; e 9 de junho, às 16h30, na Cinemateca.
“Barbara Para Sempre” celebra o legado de Barbara Hammer
A Mostra Exibições Especiais apresenta “Barbara Para Sempre” (“Barbara Forever”), dirigido por Brydie O’Connor. O documentário é construído a partir de arquivos e propõe uma investigação sobre a vida, a obra e o legado de Barbara Hammer, cineasta lésbica pioneira e nome essencial para a história do cinema experimental e feminista.
Barbara Hammer ocupa um lugar central na construção de imagens lésbicas no cinema. Sua obra ajudou a expandir as formas de representação do corpo, do desejo e da experiência feminina a partir de uma perspectiva profundamente autoral. Ao revisitar sua trajetória, o documentário também contribui para preservar uma memória artística e política que segue influenciando novas gerações de realizadoras, pesquisadores e espectadores.
A exibição de “Barbara Para Sempre” dentro do Olhar de Cinema dialoga diretamente com a proposta do festival de valorizar obras que tensionam linguagens e ampliam o repertório do público. O filme funciona como homenagem, resgate histórico e convite para conhecer uma artista que transformou a câmera em instrumento de liberdade estética e afirmação identitária.
Sessão: 13 de junho, às 10h30, no Cine Passeio (Ritz).
Festival ocupa espaços culturais de Curitiba até 13 de junho
As sessões do 15º Olhar de Cinema acontecem em espaços culturais importantes de Curitiba, como o MON, Museu Oscar Niemeyer, no Auditório Poty Lazzarotto, a Ópera de Arame, o Cine Passeio, a Cinemateca e o Teatro da Vila. A distribuição da programação por diferentes equipamentos culturais fortalece a presença do festival na cidade e amplia o acesso do público a produções de diversas origens.
Os ingressos estão à venda com valores entre R$ 8, meia-entrada, e R$ 18, pelo site oficial do evento. A programação também conta com sessões gratuitas no Teatro da Vila, no CIC e em algumas sessões no MON, reforçando o compromisso do festival com a democratização do acesso ao cinema.
Ao reunir obras brasileiras, internacionais, clássicos restaurados, estreias e produções queer, o Olhar de Cinema reafirma sua relevância como uma vitrine estratégica para o cinema independente. Nesta edição, os filmes com temática LGBTQIAP+ ajudam a compor um panorama diverso, sensível e provocador, em sintonia com os debates contemporâneos sobre identidade, memória, desejo e representatividade.
Para conferir a programação completa, horários, locais e ingressos, o público pode acessar o site oficial do Olhar de Cinema e acompanhar as redes sociais do festival.
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SERVIÇO
15º Olhar de Cinema, Festival Internacional de Curitiba
Data: 4 a 13 de junho
Local: Curitiba, Paraná
Espaços: MON, Ópera de Arame, Cine Passeio, Cinemateca e Teatro da Vila
Site oficial: www.olhardecinema.com.br
Instagram: @olhardecinema
Facebook: Olhar de Cinema
TikTok: @olhardecinema
X/Twitter: @Olhardecinema_
Produção: Grafo Audiovisual
Projeto realizado com recursos da Lei Rouanet

