Em meio ao avanço do debate sobre o fim da escala 6×1 no Congresso, a marca aposta em cinco dias de trabalho e dois de descanso para reduzir rotatividade e atrair jovens profissionais.
A Chilli Beans entrou no centro do debate sobre a escala 5×2 ao revelar que já adota o modelo em 50 lojas. A informação ganhou força em um momento em que a discussão sobre o fim da escala 6×1 avança no Congresso Nacional e reacende uma pergunta importante para o varejo brasileiro: como manter equipes motivadas em um setor marcado por alta rotatividade?
Segundo reportagem da Exame, assinada por Bianca Camatta, o fundador e CEO da Chilli Beans, Caito Maia, afirmou que a escala com cinco dias de trabalho e dois dias de descanso tem se mostrado uma estratégia relevante para atrair e reter trabalhadores da geração Z. A fala foi dada no programa Choque de Gestão, veiculado em outubro de 2025, conforme informado pela publicação. A imagem usada pela Exame traz crédito de Leandro Fonseca/Exame.
O assunto ganhou ainda mais peso porque a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados aprovou, em 22 de abril de 2026, a admissibilidade de propostas de emenda à Constituição que reduzem a jornada de trabalho no Brasil. Na prática, os textos tratam do fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua seis dias e descansa apenas um. As propostas ainda precisam passar por uma comissão especial e depois pelo Plenário da Câmara.
No caso da Chilli Beans, a mudança não apareceu como resposta direta a uma nova regra já aprovada, mas como uma decisão empresarial tomada antes da conclusão do debate legislativo. De acordo com a matéria da Exame, Caito Maia relatou que o modelo 5×2 já estava presente em 50 lojas da marca. Ele reconheceu que o faturamento não mudou, que as despesas aumentaram e que, em alguns casos, foi necessário contratar uma pessoa a mais para fechar a operação.
Mesmo assim, o ponto central da avaliação do empresário está na retenção. Para ele, a escala 5×2 reduziu o desgaste causado pela troca constante de funcionários. Em setores como varejo, alimentação, shopping centers e serviços, a rotatividade costuma gerar custos invisíveis: seleção, treinamento, adaptação de novos colaboradores, perda de produtividade e instabilidade nas equipes.
A fala de Caito Maia também toca em um ponto sensível do mercado de trabalho atual: o comportamento da geração Z, formada por jovens nascidos entre meados da década de 1990 e o início dos anos 2010. Esse público costuma valorizar equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, previsibilidade de folgas, bem-estar e jornadas que permitam organizar rotina, estudos, lazer e descanso.
Na reportagem, o empresário afirma que, ao falar para essa nova geração sobre dois dias de folga e cinco de trabalho, o formato desperta forte interesse. A declaração ajuda a explicar por que empresas do varejo começam a enxergar a jornada não apenas como uma obrigação trabalhista, mas como parte da proposta de valor para atrair talentos.
A discussão também interessa diretamente a pequenos e médios empresários. Embora o modelo 5×2 possa aumentar custos em alguns formatos de loja, ele pode diminuir perdas ligadas à saída frequente de funcionários. A conta, portanto, não envolve apenas folha de pagamento. Também passa por produtividade, clima interno, qualidade do atendimento e capacidade de manter uma equipe treinada por mais tempo.
Outro ponto citado na matéria é a participação de Patrícia Lira, fundadora da Norah Acessórios, no mesmo episódio do Choque de Gestão. Ela concordou que a redução da rotatividade pode diminuir o desgaste de contratar e remontar equipes continuamente, um problema conhecido por quem atua no varejo físico.
Apesar do avanço do tema na Câmara, ainda não há mudança definitiva na lei. A CCJ analisou apenas a admissibilidade das propostas, etapa que verifica se os textos podem seguir tramitando do ponto de vista constitucional. O mérito, ou seja, o conteúdo concreto da mudança, será discutido em comissão especial. Depois, o tema ainda precisa passar pelo Plenário.
A movimentação da Chilli Beans, no entanto, mostra que parte do mercado já testa soluções próprias antes de qualquer imposição legal. Para marcas que dependem de atendimento presencial, experiência de compra e conexão com públicos jovens, a escala 5×2 pode se tornar uma vantagem competitiva.
O caso também antecipa uma discussão que deve crescer nos próximos meses: se a escala 6×1 chegar ao fim ou for flexibilizada, empresas terão de revisar suas operações, ajustar custos e repensar a forma de organizar equipes. A experiência da Chilli Beans indica que a transição pode ter desafios financeiros, mas também pode abrir espaço para relações de trabalho com menor rotatividade, melhor retenção e maior identificação com os novos profissionais do varejo brasileiro.
